Os rolamentos com mancal são a base das máquinas rotativas em transportadores, ventiladores, bombas e equipamentos agrícolas. Ainda assim, mesmo esses componentes robustos falham — muitas vezes sem sinais aparentes e, muitas vezes, com custos elevados.
Dados do setor indicam que mais de 70% das falhas de rolamentos podem ser evitadas com práticas adequadas de instalação, lubrificação e manutenção. Compreender por que os rolamentos com mancal falham é o primeiro passo para eliminar essas ocorrências de forma definitiva.
Neste guia, detalhamos as seis causas mais comuns de rolamentos com mancal falhas, suas causas-raiz, sinais iniciais de alerta e — o mais importante — estratégias práticas de prevenção, fundamentadas nas melhores práticas de engenharia.
36% Falhas causadas por lubrificação inadequada | 27% Decorrentes de desalinhamento durante a instalação |
18% Atribuídas à contaminação e à corrosão | 19% Sobrecarga, fadiga e outras causas |
Compreendendo a anatomia do rolamento com mancal
Um rolamento com mancal — também conhecido como plummer block ou unidade alojada — é composto por uma carcaça de ferro fundido ou aço, fixada por parafusos a uma superfície, e por um rolamento inserto alojado em seu interior, normalmente um rolamento de esferas de canal profundo ou de esferas esféricas.
A carcaça oferece suporte estrutural e compensação de desalinhamento, enquanto o rolamento inserto suporta cargas radiais e axiais em eixos rotativos.

Os tipos mais comuns incluem:
UCP (fixação por parafuso prisioneiro) — montagem padrão em pedestal com dois parafusos
UCF (flange de quatro parafusos) — montagem perpendicular em parede/suporte
UCFL (flange oval de dois furos) — aplicações de flange para serviço mais leve
UCPA (fixação por bucha adaptadora) — proporciona travamento seguro no eixo, sem necessidade de preparação prévia do eixo
Falha nº 1: falha de lubrificação
A falha de lubrificação é a causa mais comum de danos em rolamentos de mancais, respondendo por cerca de 36% de todas as falhas prematuras.
Sem uma película adequada de lubrificante, o contato metal com metal entre os elementos rolantes e as pistas gera calor intenso, provocando fadiga superficial, lascamento e, por fim, travamento.
Causas-raiz
Sublubrificação: quantidade insuficiente de graxa ou intervalos de relubrificação excessivamente longos para a velocidade e a carga de operação.
Sobrelubrificação: o excesso de graxa eleva a temperatura de operação por agitação, degradando a graxa de forma prematura.
Tipo de lubrificante incorreto: uso de viscosidade inadequada ou de base de graxa incompatível (por exemplo, mistura de graxas à base de lítio e de poliureia).
Degradação do lubrificante: oxidação, degradação térmica ou ingresso de água contaminando a graxa.
⚠️ SINAIS DE ALERTA: Temperatura elevada do rolamento (>20°C acima da referência ambiente), odor de queimado, descoloração da carcaça e ruídos anormais, como chiado ou rangido. |
Estratégia de prevenção
Siga os intervalos de relubrificação recomendados pelo fabricante do rolamento, calculados com base na vida L10 e na velocidade de operação.
Uma regra prática útil: quantidade de relubrificação em gramas ≈ 0.005 × D × B (onde D = diâmetro interno em mm, B = largura do rolamento em mm).
Sempre purgue a graxa antiga por meio de um engraxador de alívio antes de adicionar graxa nova.
��DICA TÉCNICA: Utilize uma pistola de graxa com medidor digital para evitar sobrelubrificação. Os sistemas automáticos de lubrificação (ALS) são ideais para aplicações de difícil acesso ou de alto número de ciclos, assegurando dosagens consistentes e medidas a cada aplicação. |
Falha nº 2: Desalinhamento
O desalinhamento provoca distribuição desigual de carga entre os elementos rolantes e os caminhos de rolagem do rolamento. Com o tempo, isso gera concentrações de tensão por fadiga que reduzem de forma significativa a vida útil. Mesmo um desalinhamento de 0,5° pode reduzir a vida do rolamento em mais de 50% sob determinadas condições de carga.
Tipos de desalinhamento
↔ Desalinhamento angular As linhas de centro dos eixos se interceptam em ângulo, em vez de permanecerem paralelas ou colineares. | ⇉ Desalinhamento paralelo As linhas de centro dos eixos são paralelas, porém deslocadas na horizontal ou na vertical. | ↻ Desalinhamento combinado O desalinhamento angular e o paralelo ocorrem simultaneamente — o cenário mais severo. |
⚠️ SINAIS DE ALERTA: Padrão de desgaste irregular em um lado do caminho de rolagem, aumento dos níveis de vibração, desgaste prematuro de um lado do retentor, distribuição assimétrica de calor ao longo da caixa. |
Estratégia de prevenção
Utilize uma ferramenta de alinhamento a laser durante a instalação para obter o alinhamento dos eixos dentro de ±0,05 mm no sentido radial.
Para aplicações com deflexão inevitável do eixo (por exemplo, transportadores e eixos longos), selecione mancais autoalinhantes de apoio (anel externo esférico), capazes de acomodar até ±3° de desalinhamento sem concentração de tensões.
Verifique novamente o alinhamento após as primeiras 24 horas de operação, pois a expansão térmica pode alterar a posição do eixo.
Falha nº 3: Contaminação e corrosão
Partículas sólidas (poeira, fragmentos metálicos e abrasivos) atuam como agentes abrasivos no interior do rolamento, provocando micropitting nos caminhos de rolagem e nos elementos rolantes.
A entrada de água acelera a corrosão dos componentes de aço, gerando picadas de corrosão que dão origem a trincas por fadiga.
Em conjunto, contaminação e corrosão respondem por cerca de 18% das falhas de rolamentos e são especialmente frequentes em aplicações de processamento de alimentos, marítimas e em ambientes externos.
Estratégia de prevenção
Especifique rolamentos inseridos com vedação dupla (2RS ou ZZ) para ambientes contaminados.
Utilize mancais em aço inoxidável (SS) ou polímero em ambientes com lavagem frequente ou com agentes químicos corrosivos.
Adote vedações labirinto ou vedações V-ring como vedação secundária do eixo em mancais expostos a contaminantes.
Monitore a cor da graxa: escurecimento ou textura arenosa indica contaminação — reaplique a lubrificação imediatamente.
�� DICA TÉCNICA: Em plantas de alimentos ou farmacêuticas, utilize graxa à base de PTFE aprovada pela NSF H1 em mancais de base de aço inoxidável com vedação IP69K, a fim de atender aos requisitos de higiene e evitar falhas por corrosão. |
Falha nº 4: Sobrecarga e fadiga por rolamento
Todo mancal com rolamento possui capacidades de carga estática (C0) e dinâmica (C) definidas. A operação contínua acima desses limites comprime os elementos rolantes contra as pistas, provocando brinelamento (marcas permanentes) ou o clássico lascamento por fadiga — desprendimento do material superficial em fragmentos característicos em forma de concha.
Causas-raiz
Seleção de rolamento subdimensionada, baseada apenas na carga nominal e sem considerar fatores de choque ou de carga dinâmica.
Sobrecargas de choque na partida de acionamentos por correia, em operações de prensa ou em travamentos de transportadores, excedendo a capacidade estática.
Redesign da máquina que eleva as cargas no eixo sem a correspondente atualização dos rolamentos.
⚠️ SINAIS DE ALERTA: Descascamento ou lascamento na superfície da pista, visível na graxa; aumento da vibração nos harmônicos da frequência de operação; e elevação progressiva do ruído sob carga. |
Estratégia de prevenção
Falha nº 5: Instalação inadequada
Erros de instalação introduzem concentrações de tensão e iniciam a falha muito antes de a vida útil nominal ser atingida.
Entre os erros mais comuns estão impactos de martelo nos anéis do rolamento, torque incorreto nos parafusos prisioneiros e montagem em diâmetros de eixo subdimensionados ou superdimensionados.
Procedimento correto de instalação
1 | Verifique a tolerância do diâmetro do eixo O eixo deve estar dentro da tolerância h9 a j6 para unidades padrão UCP/UCF. Meça com micrômetro — nunca assuma que as dimensões nominais estão corretas. |
2 | Limpar o eixo e o furo da caixa Remova todos os resíduos, a ferrugem e a graxa antiga. Aplique uma fina película de óleo no eixo para facilitar a montagem e prevenir a corrosão por atrito. |
3 | Montar corretamente o rolamento no eixo Utilize uma ferramenta de montagem de rolamentos ou uma prensa para aplicar força somente ao anel interno. Nunca golpeie o anel externo nem a caixa. Para ajustes com interferência, aqueça o rolamento a 80–90°C com um aquecedor por indução. |
4 | Aplicar o torque correto aos parafusos prisioneiros Para o travamento padrão por parafusos prisioneiros em unidades UCP, aplique o torque conforme a especificação do fabricante (normalmente 10–25 Nm, dependendo do diâmetro do furo). Utilize trava-rosca para evitar o afrouxamento. |
5 | Alinhar e fixar a caixa Aperte os parafusos da caixa de forma preliminar, confirme o alinhamento e, em seguida, aplique o torque especificado. Verifique se o rolamento está livre para se autoalinha antes do aperto final. |
6 | Lubrificação de assentamento Adicione uma pequena carga inicial de graxa, opere em baixa rotação por 30 minutos e, em seguida, complemente com a quantidade final de graxa. Isso promove o assentamento da graxa em toda a pista de rolagem. |
Falha nº 6: vibração e corrosão por atrito
Quando ocorre micromovimento relativo entre superfícies em contato — entre o anel interno do rolamento e o eixo, ou entre o anel externo e o furo da caixa — sob vibração, sem movimento completo de rolagem, desenvolve-se a corrosão por atrito.
O microdeslizamento rompe a camada de óxido, produzindo partículas de óxido de ferro (ferrugem) que desgastam as superfícies de contato, gerando marcas de desgaste por atrito e, por fim, falsa brinelagem.
Estratégia de prevenção
Garanta o ajuste correto entre a caixa e o eixo — evite folgas excessivas em ambientes com alta vibração.
Aplique pasta antifricção para evitar corrosão por atrito (por exemplo, Molykote 1000) nas interfaces entre o eixo e o furo da caixa.
Corrija a origem da vibração: componentes rotativos desbalanceados, estruturas em ressonância ou fundações inadequadas da máquina amplificam o risco de corrosão por atrito.
Utilize versões com bucha de fixação ou colar de travamento excêntrico que eliminam completamente o movimento relativo entre eixo e furo.
Falhas em mancais de rolamento: tabela comparativa
A tabela abaixo resume os seis modos de falha, suas causas principais, os métodos de detecção e a classificação de severidade, auxiliando as equipes de manutenção na priorização das ações.
Modo de falha | Causa principal | Método de detecção | Severidade | Prevenção |
Falha de lubrificação | Tipo de graxa incorreto, quantidade insuficiente ou excessiva | Termografia, análise de vibração, inspeção visual | Alta | Relubrificação programada; sistemas automáticos de lubrificação |
Desalinhamento | Erro de instalação, dilatação térmica, acomodação da base | Assinatura de vibração, padrão de desgaste irregular, verificação a laser | Alta | Alinhamento a laser; unidades de rolamentos autoalinhantes |
Contaminação e corrosão | Vedação inadequada, entrada de água, ambiente severo | Análise da graxa, corrosão visível, vibração elevada | Alta | Rolamentos com vedação dupla; mancais em aço inoxidável |
Sobrecarga / fadiga | Rolamento subdimensionado, cargas de choque, alterações de projeto | Lascamento na graxa, vibração em frequências características de defeito | Médio | Cálculo correto da carga; fator de segurança adequado |
Instalação inadequada | Interferência incorreta, torque inadequado, danos ao anel | Superaquecimento precoce, ruído excessivo desde a primeira partida | Alta | Siga o procedimento de montagem; utilize ferramentas de instalação |
Vibração / fretting | Microdeslizamento devido à vibração, ajuste folgado | Marcas de fretting no eixo, resíduos de coloração ferruginosa | Médio | Pasta antifretting; travamento com bucha de fixação |
Guia de seleção de graxa para mancais de rolamento
A seleção do tipo correto de graxa é determinante para a vida útil do rolamento. A tabela a seguir apresenta recomendações específicas por aplicação, com base no ambiente de operação e na faixa de temperatura.
Aplicação | Tipo de graxa | Grau NLGI | Faixa de temperatura | Intervalo |
Industrial geral | Complexo de lítio | 2 | -20°C a +160°C | 1.000–3.000 horas |
Alta temperatura | Poliureia ou sulfonato de cálcio | 2–3 | Até +220°C | 500–1.000 horas |
Alimentos e farmacêutico | Sintético à base de PTFE / PAO com NSF H1 | 2 | -40°C a +180°C | Conforme o plano HACCP |
Ambiente externo / marítimo | Graxa marítima grau EP | 2–3 | -30°C a +130°C | 500–1.500 horas |
Baixa temperatura | PAO sintético, baixo ponto de fluidez | 1–2 | -60°C a +120°C | 2.000–4.000 h |
Checklist de Manutenção Preventiva
Um programa de manutenção estruturado é o investimento de melhor custo-benefício para prolongar a vida útil de mancais de rolamento. Utilize esta checklist como base mínima para os intervalos de manutenção.
Inspeções Mensais
✓ | Inspecione a carcaça quanto a trincas, parafusos soltos ou marcas de desgaste anormais |
✓ | Verifique a temperatura de operação com termômetro infravermelho (alerta se >70°C ou >20°C acima da referência) |
✓ | Ouça a presença de ruídos anormais: rangidos, chiados ou vibrações graves indicam danos internos |
✓ | Inspecione a saída de graxa em busca de sinais de contaminação ou alteração na cor da graxa expelida |
Inspeções Trimestrais
✓ | Realize análise de vibração em conjuntos de transmissão críticos com um analisador portátil |
✓ | Verifique e reaplique o torque nos parafusos prisioneiros ou nas porcas de trava da bucha de adaptação conforme a especificação |
✓ | Relubrifique conforme o intervalo calculado (não omita esta etapa, mesmo que os rolamentos aparentemente operem normalmente) |
✓ | Verifique se o alinhamento do eixo não sofreu alteração, utilizando relógio comparador ou sistema a laser |
Inspeções Anuais
✓ | Realize inspeção com desmontagem completa em unidades de alta criticidade durante a parada programada |
✓ | Substitua os retentores em unidades expostas a ambientes de alta contaminação |
✓ | Envie uma amostra de graxa para análise laboratorial em aplicações críticas |
✓ | Revise os cálculos de seleção de rolamentos se as condições de operação tiverem mudado |
✓ | Atualize os registros de manutenção e o acompanhamento do MTBF (Mean Time Between Failures) |
Perguntas frequentes
P: Qual é a vida útil esperada de um rolamento com mancal?
Em condições ideais, um rolamento com mancal corretamente selecionado, instalado e mantido deve atingir sua vida L10 nominal — normalmente entre 20.000 e 50.000 horas. No entanto, fatores reais como contaminação, desalinhamento e lubrificação inadequada frequentemente reduzem a vida útil efetiva para 30–50% da classificação teórica.
P: Como soa um rolamento com mancal em falha?
A fadiga em estágio inicial produz um ruído leve de rolagem ou uma vibração com textura áspera. À medida que o dano avança, isso se torna um clique ou batida nítidos em intervalos regulares, correspondentes à frequência dos elementos rolantes. A falha de lubrificação normalmente produz um chiado agudo ou um ruído estridente.
P: Posso misturar tipos diferentes de graxa para rolamentos?
Não — misturar graxas incompatíveis (por exemplo, à base de lítio e de poliureia) pode causar amolecimento rápido, sangramento e perda do filme lubrificante. Ao mudar o tipo de graxa, elimine completamente a graxa antiga ou adote uma opção compatível, confirmada pela tabela de compatibilidade do fornecedor do lubrificante.
P: Quando devo substituir a unidade completa do mancal em vez de apenas o inserto?
Se a carcaça não estiver danificada e tiver a dimensão correta, a substituição apenas do rolamento inserto é a opção mais econômica. Porém, se o alojamento da carcaça estiver desgastado, corroído ou trincado, ou se houver dano por impacto, toda a unidade do mancal deve ser substituída para garantir o ajuste e o assentamento adequados.
P: Qual é a diferença entre os mancais UCP e UCF?
Os mancais UCP utilizam uma carcaça tipo pedestal com dois parafusos, montada sobre uma superfície plana e paralela ao eixo. Os mancais UCF utilizam uma carcaça flangeada com quatro parafusos, montada perpendicularmente ao eixo. As unidades UCP são mais comuns no suporte de transportadores e eixos de transmissão, enquanto as unidades UCF são indicadas para montagem em parede ou suporte, quando o eixo se estende horizontalmente até a superfície de fixação.
Conclusão
As falhas em mancais são raramente súbitas — quase sempre resultam de esforços acumulados e evitáveis.
Os seis modos de falha abordados neste guia — falha de lubrificação, desalinhamento, contaminação, sobrecarga, instalação inadequada e corrosão por atrito — deixam sinais distintos que permitem uma intervenção proativa antes de ocorrer uma ruptura catastrófica.
Os investimentos de maior impacto para a equipe de manutenção são: (1) um programa de lubrificação disciplinado e orientado por dados, (2) ferramentas e competência em alinhamento de precisão e (3) a seleção correta de rolamentos, considerando as cargas reais de operação, e não apenas os valores nominais.
Ao combinar esses fundamentos com um programa estruturado de inspeção e monitoramento de vibração, fabricantes e engenheiros de manutenção podem alcançar, de forma consistente, vidas úteis de rolamentos que atendam ou superem a vida L10 de projeto — reduzindo paradas não programadas, diminuindo custos de reparo e ampliando a confiabilidade dos equipamentos em toda a planta.
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